sexta-feira, 2 outubro , 2026

Temer fora do seu tempo e do seu papel, mas…

O recusa do impeachment de Dilma não era solução possível; o seu afastamento não está solução suficiente. Desmanchou-se um combo de muitos suspeitos, mas parte dele ainda governa. Edito Marcus Fabiano: “Temer é um resíduo natural do cleptopetismo. Seguindo Dilma, que entregou o penhor do FGTS à agiotagem, ele simplesmente libera o saque das contas dos desempregados e endividados. Promove assim a limpeza da poupança de natureza securitária dos mais pobres, deixando intactos os bancos e os juros. É exatamente o projeto da chapa Dilma-Temer, rumo à lata de lixo da História, com a tarja ‘não reciclável’”.Esvaziado de legitimidade pessoal, esvazia, com descuidados, a legitimidade que lhe resta da dignidade da Presidência: “Surpreendido por um turbilhão de críticas e deboches, o governo Temer cancelou a licitação para compra de produtos de luxo e com preços acima do mercado para os passageiros do avião presidencial em 2017. Em meio à crise política, é um desgaste a mais para a sua imagem. De 2009 até agora esse tipo de compra era feita sem licitação, o que é ainda pior”.Enquanto o governo corta benefícios de famílias de baixa renda, o Palácio do Planalto previa a compra de 500 potes de sorvete Häggen-Dazs, 5000 cápsulas de café, entre outros quitutes. É claro que não pega bem. Quando se fala em austeridade, os cortes devem alcançar do teto de gastos aos privilégios das autoridades. No valor de R$1,75 milhão, esse cardápio é o retrato dos maus hábitos do poder público. Durante muito tempo, integrantes de diferentes poderes se acostumaram a gastar sem limites, beneficiando-se de luxos financiados com dinheiro do cidadão. Hoje, quem paga a conta não aceita esses abusos” (Carolina Bahia, DC, 28dez16, ed.).Também nessas ostentações Temer repete Dilma: “A vaidade tem seu preço. E cada vez mais alto, mostra a evolução dos gastos para arrumar o cabelo e maquiar a presidente Rousseff para suas aparições em rede nacional de TV.” Em 14 pronunciamentos, preparar o visual presidencial variou de R$400 a R$3.125. Aumento de 681% (Fernanda Odilla e Filipe Coutinho (FSP, 26jun13).É velho costume governantes lambuzam labuzarem-se em mordomias. Mas agora as pessoas estão com raiva. Em contexto de rancor advindo do aperto doméstico decorrente de má administração pública, não é sensato explicitar faustos. O grave desse refestelamento, todavia, passa ao largo do pregão para convescotes.Vinícius Torres Freire (FSP, 29dez16, ed.) explicita: “Cortar regalias de parte do alto funcionalismo talvez ajudasse a acabar com a ideia de que, em vez de entrar no serviço público, essa gente ganhou um título de nobreza jeca, meio caminho andado para se comportar como casta, se dar salários acima do teto e coisas piores”.Mas adverte: “O salário fora da lei de uns cinco juízes e procuradores paga a conta anual da comida do avião do presidente, que suscitou escândalos e cafonices demagógicas. É esnobismo? Vamos acabar com os carros oficiais de políticos e juízes. Não rende muito, mas tem um sentido. Note-se: apenas o déficit federal deste ano deve ser de R$167,7 bilhões. A despesa total de R$1,25 trilhão (meio trilhão só de Previdência, INSS). O salário além do teto de juízes e procuradores custa mais de bilhão por ano. Basta bater o olho no Orçamento para achar coisa esquisita”.Por fim: “Então fale-se de coisa séria, não dessa fofoca de quem se comporta no debate público como quem faz chacrinha em rede social. Trate-se das tragédias da Previdência, dos Estados, de outros desarranjos enormes do setor público e desigualdades no setor privado.” Seja: vamos ao que interessa.De fato, por quatro motivos, o afastamento de Dilma não foi medida suficiente: Temer não conversa lealmente com o Brasil; nos seus equívocos, mostra-se fora do seu tempo, agindo como um político antiquado; desconsidera o efeito simbólico dos gestos de um Presidente; não se compenetra no papel de governante transitório.Michel Temer é articulado, tem apoio do Congresso. Aplicar-se nas reformas necessárias ao País, tão já sabidas por quem distingue princípios de organização política e de administração pública, isso o inscreveria dignamente na história.

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